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Faz sentido falar em perda ou ganho com hedge?

Faz sentido falar em perda ou ganho com hedge?
25/05/2020
Eric Barreto
Partner e Prof. do Insper

Recentemente, fiz um comentário em redes sociais sobre a explicação do lucro da empresa Terra Santa Agro. Em vários veículos de comunicação, foi dito que "o resultado trimestral decorreu também, principalmente, de a companhia não ter efeito de reciclagem de hedge accounting..." – a afirmação é feita com tanta naturalidade e sem maiores explicações, que ficamos até com vergonha de perguntar do que se trata. Eu, professor de contabilidade de instrumentos financeiros, deveria explicar, e não ter dúvida ao ler uma explicação tão... natural!

Mas vamos à realidade: a contabilidade de hedge (hedge accounting) é um critério contábil opcional, que as empresas podem aplicar para reduzir a volatilidade causada por instrumentos financeiros que são contratados com a finalidade de hedge, sejam derivativos ou não. O assunto em si já é tenso, e quando se fala sobre “não ter o efeito de reciclagem” em determinado período, pode-se confundir ainda mais, portanto, a dúvida não é vergonhosa, e a explicação, por outro lado, carece de mais elementos.

Ao ler as DFs da Terra Santa, a nota de práticas contábeis informa que, a partir de fevereiro de 2019, a empresa passou a não fazer hedge accounting para novos instrumentos financeiros, e que os mais de R$ 191 milhões (negativos) registrados em ajustes de avaliação patrimonial, no PL, seriam registrados no resultado (reciclados) entre 2020 e 2022, conforme cronograma de realização do objeto de hedge. Neste ponto, não sabemos a classificação do hedge, nem o instrumento de proteção ou o objeto.

Mais à frente, na nota de risco de taxa de câmbio, é informado que a companhia “adotava” a prática de hedge accounting, designando suas dívidas expostas à variação do risco cambial como hedge das vendas futuras de exportação e de outras vendas futuras indexadas ao dólar. Em complemento, informa que em 31 de março de 2020, a companhia possui dívidas designadas como hedge no montante de R$ 673 milhões. Ora, se ainda existem dívidas designadas como instrumento de hedge, não houve descontinuação da estratégia, então, a companhia ainda “adota” hedge accounting para um montante significativo das dívidas, mas não para as novas contratações.

Por fim, na nota de hedge accounting, é esclarecido que trata-se de um hedge de fluxo de caixa, o que poderíamos ter deduzido da leitura das duas anteriores, mas é importantíssimo deixar claro: Nesse tipo de hedge, as variações cambiais da dívida designada como instrumento de hedge não afetam o resultado do período, pois tem a conta de ajustes de avaliação patrimonial (PL) como contrapartida. Em um ano com variação cambial de quase 30%, é de se esperar que o saldo desta conta aumente de forma significativa, e no caso da Terra Santa, o saldo, que inicia em R$ 21 milhões negativos, termina em R$ 191 milhões, também negativos. Em outras palavras, sem hedge accounting, o lucro líquido de R$ 11,8 milhões da Terra Santa Agro teria sido um prejuízo de quase R$ 158 milhões! (considerando que a variação cambial negativa, de R$ 169 milhões, tivesse afetado o resultado)

Esse valor negativo de R$ 191 milhões será “reciclado” (transferido do PL para a DRE) à medida que as receitas protegidas se realizem, de acordo com um cronograma estipulado pela empresa, que vai de 2020 à 2022.

Aplausos para a contabilidade de hedge!

Como é de praxe, faço uma crítica à divulgação de notas explicativas e à comunicação de resultados da empresa, que resulta em um trabalho de interpretação imenso até chegar a alguma conclusão, porém, o hedge accounting cumpriu seu papel: as variações cambiais da dívida só afetarão o resultado da Terra Santa Agro quando as receitas em dólares também afetarem, de forma que, tanto financeira quanto contabilmente, receitas e despesas em dólares estarão casadas no tempo.

A pergunta que não foi respondida nas notas explicativas: por que, então, a gestão da empresa optou por descontinuar o hedge accounting para novas contratações?

O caso da Suzano

Com uma estratégia de hedge diferente da Terra Santa Agro, e sem optar pelo hedge accounting, a Suzano reportou um baita prejuízo no primeiro trimestre de 2020.

Li várias críticas à estratégia da companhia, escritas por jornalistas, profissionais e acadêmicos, “especialistas” no assunto. Devido ao prejuízo, o tom das críticas foi bem diferente em relação à Terra Santa, para a qual a explicação sobre “não reciclagem de hedge accounting” passou batida.

Entre as críticas à Suzano, aquela que diz que não existem perdas de hedge, uma vez que os ganhos cambiais com as receitas compensam as perdas nas dívidas dolarizadas e nos derivativos é uma verdade somente do ponto de vista financeiro, com relação a fluxos de caixa projetados. Contabilmente, precisamos observar que:

  • As receitas futuras protegidas, que teriam gerado ganho de variação cambial, ainda não foram performadas, por isso, estão fora do balanço, não gerando impacto na DRE;
  • A dívida em dólar e os derivativos que protegem as receitas futuras já foram contratados, então, tanto a variação cambial da dívida como a marcação a mercado dos derivativos, ambos negativos no referido período, afetaram o resultado do exercício.

A adoção prévia do hedge accounting teria protegido o resultado da Suzano de uma variação tão abrupta, porém, fazer a adoção do hedge accounting para os mesmos instrumentos que já geraram perdas contábeis não vai reverter o prejuízo já realizado. Para novos instrumentos financeiros, no entanto, acredito que a contabilidade de hedge seja uma boa. A questão que normalmente se coloca é que a contabilidade de hedge reduziria a comparabilidade entre Suzano e sua principal concorrente. Em minha opinião, a própria estratégia de hedge já reduz essa comparabilidade, e se acreditamos que hedge accounting é uma boa prática, que sejam premiados os precursores.

Novamente, faço uma crítica à divulgação: A Suzano não omitiu informações, seja neste trimestre ou nos anteriores, e aparentemente, a Administração da empresa está convencida de que sua estratégia de hedge foi acertada, então, por que o mercado não entendeu? Em minha opinião, porque as notas explicativas foram feitas para atender à normatização contábil, e não ao usuário. Teria valido muito a pena para a Suzano pensar fora da caixa e juntar em uma única nota informações e quadros sobre esse hedge, deixando mais clara a sua estratégia de proteção, destacando quanto de receita está protegido por empréstimos em dólares, swaps e ZCC em cada período.

Conclusão

Concluo esse texto lembrando que o mercado é duro e prático. Perdoa a informação turva quando o resultado é positivo e pune quando é negativo, muitas vezes ignorando as letras pequenas que explicavam os altos e os baixos.

Entendo que valha a pena fazer notas explicativas mais didáticas, evidenciando em um mesmo quadro instrumentos de proteção e itens protegidos. Também acho que, sempre que existe uma estratégia de hedge efetiva, o hedge accounting é uma boa opção.

Por último, respondo à pergunta do título: no longo prazo, hedge idealmente é uma conta de soma zero, porém, se pensarmos em competência, o que não é culpa da contabilidade, mas da lógica de atribuir os resultados aos períodos em que foram gerados, é possível encontrar ganhos ou perdas de hedge. Acostumem-se. Ou construam uma estratégia de hedge accounting compatível.

 
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