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Riscos financeiros: de que forma podemos gerenciá-los?

Gustavo Rocha, consultor da M2M, comenta sobre os principais riscos financeiros incorridos pelas empresas e instituições financeiras, e como gerenciá-los.


Riscos financeiros: de que forma podemos gerenciá-los?
Gustavo Rocha
Gustavo Rocha
Consultor da Mark2Market

02/06/2015

Não é incomum escutar algum consultor financeiro dizendo que não se deve gastar mais do que ganhamos e do que possuímos em disponibilidades e investimentos. Da mesma forma, sabemos que não devemos assumir compromissos financeiros que tenham como vencimento prazo mais curto do que nossas entradas de recursos (salário, por exemplo). Em linhas gerais, nas empresas e instituições financeiras, a lógica é a mesma, e por isso surge a importância de haver um gerenciamento de riscos financeiros efetivo. Mas o que é risco financeiro, quais os tipos, e de que forma podemos gerenciá-los?

De maneira sucinta, risco pode ser entendido como incerteza quanto a eventos futuros (e.g., cotação do dólar no mês seguinte), e estas incertezas podem ser mensuradas através da avaliação das probabilidades de ocorrência destes eventos. Existem diversos tipos de riscos, e podemos classificá-los em riscos de negócio (inclui risco de produto, macroeconômico e tecnológico), ou outros, como o risco de evento (risco de imagem, de desastre, legal e político) e o risco financeiro (risco de mercado, de crédito, de liquidez e operacional). Especificamente, entre os riscos financeiros, podemos ter as seguintes classificações, de acordo com a sua respectiva natureza:

  • Risco de mercado: diz respeito à probabilidade de perdas em decorrência das possíveis mudanças (oscilações) nos preços e cotações;
  • Risco de liquidez: está relacionado à provável incapacidade de honrar os compromissos financeiros, devido ao descasamento dos prazos e dos volumes das entradas e saídas de caixa;
  • Risco de crédito: refere-se ao potencial não pagamento pela contraparte, ou pagamento fora das condições negociadas (prazo, juros, etc.), dos recursos a que se faz jus;
  • Risco operacional: ocasionado, dentre outros fatores, pela ausência de controles internos e externos, falhas de equipamentos, má administração da organização e dos recursos humanos, funcionários desqualificados ou mesmo mal-intencionados, etc.

Conhecendo os seu riscos atuais e potenciais, a empresa ou instituição financeira deve tomar as medidas necessárias para minimizar ou até mesmo anular os efeitos adversos que estes podem ocasionar. Para ilustrar, imaginemos um cafeicultor que realiza a compra de insumos importados em moeda estrangeira (dólar), e vende o produto final (café) no mercado nacional a um preço prefixado em reais, acordado na data do contrato de venda junto ao seu cliente. Assim, a priori, podemos observar a presença dos seguintes riscos financeiros:

  1. Risco de variação cambial: suas receitas são em moeda local (reais) e ele assume compromissos (compra de insumos) em moeda estrangeira (dólar). Uma eventual alta do dólar, irá afetar negativamente o seu resultado;
  2. Risco de variação do preço do café: o preço do café no mercado poderá oscilar entre a data do contrato de venda e a efetiva liquidação financeira (venda) possibilitando perdas ao cafeicultor. Isto porque caso o preço do café na data da efetiva liquidação esteja maior do que aquele prefixado na data do contrato de venda, o cafeicultor será obrigado a vender o produto a um preço mais barato em relação àquele que o mercado estaria disposto a pagar.

Para gerenciar esses dois riscos de mercado, o cafeicultor poderia por exemplo, realizar hedge para minimizar ou mesmo anular os potenciais efeitos do risco de variação cambial e do preço do café. Existem algumas diferentes formas de fazer hedge, conforme abaixo:

  • Hedge natural: ocorre quando os riscos de base do ativo coincidem com os do passivo, em prazo e em volume financeiro. Voltando ao exemplo anterior, um hedge natural ocorreria caso os insumos fossem comprados em moeda local e a um preço também prefixado, de forma que os riscos de variação cambial e do preço do café seriam anulados (as suas receitas e suas despesas estariam prefixadas em reais), tornando previsível a margem do cafeicultor;
  • Hedge via mercado de derivativos: mediante a realização de operações no mercado de derivativos, que inclui instrumentos como swaps, termos, futuros e opções, os participantes travam os seus riscos financeiros. Para o risco de variação do preço do café, o cafeicultor poderia comprar contratos futuros de café, cujo objeto de negociação é o próprio preço do café referenciado em dólares. Assim, numa eventual alta do preço dessa commodity, a perda pela venda do café a um preço mais barato seria compensada pelo ganho no derivativo (no caso de queda no preço do café, valeria o mesmo raciocínio). E uma vez que o contrato futuro de café é cotado em dólares, deverá haver a venda de contrato futuro de dólar para que o hedge seja realizado em reais.
  • Hedge dinâmico: para a “trava” via mercados futuros de derivativos, deve ser realizado hedge com volumes ajustados. Ou seja, os participantes que desejam utilizar contratos futuros de derivativos para fins de hedge, devem assumir posições futuras em que os tamanhos destas sejam equivalentes aos valores presentes dos tamanhos das posições a serem hedgeadas. O tamanho da posição no mercado futuro de derivativos deve ser ajustado diariamente para a obtenção de um adequado hedge. Esta especificidade é devida à existência do mecanismo de ajuste diário nestes contratos.

Na gestão dos fluxos de caixa, que está relacionada ao risco de liquidez, é necessário atentar-se aos volumes, prazos e indexadores dos ativos e passivos. O conceito da gestão de ativos e passivos (ALM – Asset & liability management) é útil para esse gerenciamento, pois auxilia os tomadores de decisão quanto à alocação de recursos, e inclui as análises de gap (descasamento de volumes e prazos) e de duration (prazo médio dos vencimentos das operações ponderados pelos fluxos de caixa a valores presente).

Em resumo, os riscos financeiros variam para cada tipo de empresa, e de acordo com as operações realizadas, mas é importante destacar que é fundamental que os riscos atuais e potenciais sejam conhecidos e gerenciados apropriadamente, de forma a anulá-los ou minimizá-los. A forma de gerenciá-los depende das estratégias de alocação dos ativos e dos passivos, bem como das particularidades inerentes de cada empresa (tolerância a riscos, políticas corporativas, etc.).

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