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Petróleo em queda agrava crise da Petrobras

Matéria do Estado de S. Paulo comenta crise da Petrobras com comentários do Prof. Eric Barreto


Petróleo em queda agrava crise da Petrobras
Agência Estado
Agência Estado

14/02/2016

Por Fernanda Nunes e André Magnabosco

Atolada numa dívida de mais de R$ 500 bilhões e alvo de investigação da operação Lava Jato, da Polícia Federal, que apura um esquema de corrupção, a estatal brasileira Petrobrás sente com ainda mais força os impactos da queda do preço do petróleo no mercado internacional – a cotação do barril já recuou mais de 70% nos últimos 18 meses e tem se mantido ao redor dos US$ 30, colocando em dúvida até a viabilidade do pré-sal, apontado pelo governo, quando de sua descoberta, como um “bilhete premiado”.

Com a drástica redução da margem de lucro de seu principal produto, a empresa tenta buscar saídas. Já reduziu investimentos – o plano de aplicar US$ 23 bilhões entre 2015 e 2019 já caiu para US$ 20 bilhões, e deve ter um novo corte – e anunciou que colocará ativos à venda, além de sair de várias áreas, como a de energia, para se dedicar basicamente ao petróleo. Algumas certezas do setor começam a ser questionadas mais fortemente, como a política de conteúdo nacional para a indústria petrolífera, que o governo insiste em não mexer, argumentando que ainda é preciso “proteger” as empresas nacionais.

A crise provocada pela queda livre ocorrida nos preços do petróleo desde outubro de 2014 é mais severa no Brasil do que aquela que força empresas produtoras do mundo todo a se adequarem ao cenário adverso, vendendo ativos e cortando custos. Altamente endividada e com pouco dinheiro para investir, a “nova Petrobrás”, que começou a surgir sob a gestão de Aldemir Bendine, ainda enfrenta o descrédito do mercado financeiro e de parceiros desde que a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, revelou a existência de um esquema de corrupção envolvendo a empresa e fornecedores.

Para conseguir retomar o crescimento, a Petrobrás decidiu encolher de tamanho e abandonar várias áreas de negócio. Na semana passada mesmo, a empresa deu os primeiros passos para sua retirada do setor elétrico e colocou à venda 21 usinas térmicas e gasodutos por onde circula o gás que as abastece. O foco, agora, é a produção de petróleo, principalmente nas áreas do pré-sal – embora, ao mesmo tempo, haja uma movimentação do governo no sentido de permitir maior flexibilização na operação dessas áreas.

Sem fôlego para investimentos de porte, a Petrobrás já não quer dominar todo o elo da cadeia e, na medida em que se retira de projetos, demite e provoca falência de fornecedoras, principalmente no setor naval. Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), falta estratégia de longo prazo à nova Petrobrás, ao contrário do que ocorre com outras empresas.

“A Shell, por exemplo, já produz mais gás natural do que petróleo, porque é mais barato e menos poluente. Ele será o combustível da transição, mas a Petrobrás está diminuindo a importância da área, vendendo ativos. Está se tornando uma outsider”, pondera o consultor. O diretor da consultoria MaxiQuim, Otávio Carvalho, diz ainda que “as grandes petroleiras globais possuem um braço petroquímico para que, em momentos como o atual, quando margens de exploração e produção são menores, elas se beneficiem nessa outra ponta”.

Flexibilização. Na Petrobrás, depois da substituição de toda a diretoria, em fevereiro de 2015, o caminho foi abrir espaço para que outras petroleiras atuem no Brasil e resgatem a indústria fornecedora, que vem minguando. A presidente Dilma, que por anos se negou a atender aos pedidos das estrangeiras para que mais leilões de concessão de reservatórios fossem feitos e para que a operação no pré-sal fosse flexibilizada, já dá sinais de que está disposta a negociar.

A Lei da Partilha (12.351/2010), que trata do pré-sal, define que a Petrobrás deve liderar todo o investimento na área, com ao menos 30% de participação nos desembolsos. Mas Dilma, diante da falta de capacidade de investimento da companhia, tem se reunido com presidentes de multinacionais e com o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, para elaborar um pacote de medidas que, na prática, servirá para acabar com o predomínio da Petrobrás no pré-sal e a dependência que os fornecedores têm da estatal.

A flexibilização do setor vai começar pela venda de áreas de pré-sal contínuas a outras, já em fase de exploração e produção. O processo é conhecido tecnicamente como unitização. Porém, há um impasse sobre quem deve operá-las, se o concessionário do bloco original, se a Petrobrás – por ser área de pré-sal – ou uma empresa nova. A dúvida ocorre porque as concessões originais foram feitas antes do marco regulatório do pré-sal, que exige a participação de 30% da Petrobrás.


Como solução, o governo planeja realizar um leilão dos blocos de unitização no pré-sal. As companhias vencedoras terão o direito de negociar diretamente com a operadora dos blocos originais um arranjo societário capaz de solucionar o impasse. Como a Petrobrás é a dona da maior parte dessas áreas, caberá a ela escolher em quais dessas áreas de pré-sal quer continuar e quais quer vender, dentro do seu plano de desinvestimento.

“O pré-sal é um dos grandes diferenciais da Petrobrás, pelo seu custo de produção de US$ 8”, afirmou Bendine, ao anunciar os ajustes no plano de investimentos dos próximos quatro anos, em janeiro.

Tamanho. Ao todo, a Petrobrás abriu três frentes de atuação para reduzir de tamanho. A estatal planeja vender US$ 57 bilhões do seu patrimônio até 2019, investirá menos e ainda cortará custos operacionais. A companhia já anunciou o repasse de 49% da subsidiária de distribuição de gás natural, a Gaspetro, para a japonesa Mitsui. Também elaborou um cardápio de ativos dos quais quer se desfazer, incluindo parte da BR Distribuidora.

Em linha com a proposta de focar o investimento na produção de petróleo, já em 2015 começou a priorizar o gasto com obras, em projetos onde está disposta a crescer, na diretoria de exploração e produção. Dos R$ 51 bilhões despendidos em novas construções, 69% foram para essa diretoria, principalmente para o pré-sal. Segundo análise de Eric Barret, professor do Insper e diretor da consultoria M2M, a área de abastecimento – produção e comercialização de combustíveis –, a segunda a receber mais dinheiro, ficou com apenas 16% do total. A subsidiária de biocombustíveis, a Pbio, responsável pela geração de energia alternativa, ficou sem verba para crescer.

O corte de investimento é bilionário. Até outubro do ano passado, o plano era gastar US$ 23 bilhões de 2015 a 2019. No mês passado, a empresa ajustou o número para US$ 20 bilhões e um valor ainda menor deve ser divulgado até março, já com as projeções para 2020. Os gastos operacionais ainda estão em estudo.

A projeção inicial era de US$ 29 bilhões, mas a Petrobrás colocou o orçamento em revisão, sem indicar a que valor vai chegar. A maior parte da economia virá das demissões e reestruturação interna, que está em processo.

Para Adriano Pires, o comando da estatal “abandonou a obsessão ideológica para adotar uma obsessão financista”, em referência ao foco em disciplina de capital para diminuir o comprometimento do caixa com o pagamento de dívidas. “Isso é necessário, mas só faz sentido se estiver incorporado a uma estratégia de longo prazo, para a empresa voltar a ser relevante daqui a cinco anos", reafirma Pires. “Não adianta capitalizar se não houver definição de futuro. Hoje, os investidores não sabem qual é essa estratégia porque ela não existe”, completa.

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