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Finanças pessoais para rebeldes

Crítica a dois tipos de especialistas em educação financeira: os que vendem o mapa da mina e os chatos, extremamente conservadores.


Finanças pessoais para rebeldes
Eric Barreto
Eric Barreto
Professor do Insper e diretor da M2M

01/11/2014

Esse texto é uma crítica a dois tipos de especialistas em educação financeira: àqueles que, através de livros e cursos de finanças, vendem a ideia de riqueza fácil para os discípulos que seguem suas receitas, e aos chatos que só pensam na vida após a independência financeira. Se você gosta dos conselhos do Mauro Halfeld, na rádio CBN, não leia esse texto, que é dedicado principalmente àqueles que sentem sono ao escutar o famoso especialista em finanças pessoais.

Mesmo vivendo em um país que oferece poucas oportunidades de mobilidade social, conheci pessoas que cresceram financeiramente através dos estudos, e outras que venceram desafios usando sua criatividade. No entanto, até o momento em que escrevo esse texto, ainda não conheci alguém que ficou rico seguindo as dicas dos gurus de finanças pessoais...

Nessa área, abundam livros com títulos como “você quer ser um milionário”, “o toque de Midas”, “milionários instantâneos”, “o seu primeiro milhão”, “o primeiro milhão para casais”, “casais inteligentes enriquecem juntos”, “descubra o milionário que existe em você”, “a receita do bolo”, “como ganhar mais com seu dinheiro” e “minutos de riqueza”, que misturam psicologia, autoajuda e um pouco, bem pouco, de finanças. Suas capas vendem a ideia de que existem alguns “passos certeiros” para alcançar a riqueza, sem esforço e sem demora, só com a inteligência. Basta seguir a receita do bolo.

Em economia, existe um conceito chamado arbitragem. Um arbitrador aproveita oportunidades relativas em um mercado, movimentando recursos financeiros de um investimento menos atraente para outro em um lapso de tempo. Desta forma, a arbitragem tende a causar uma convergência de preços, fazendo com que não existam ativos com vantagens absolutas, ou seja, se existisse uma receita de bolo, várias pessoas seguiriam essa receita, fazendo com que a demanda reduzisse os ganhos esperados da tal estratégia vencedora.

É preciso tomar muito cuidado com os dados históricos. No período de 10 anos encerrado ao final de 2012, os imóveis se valorizaram a taxas absurdamente altas no Brasil, o que fez com que alguns “especialistas” em finanças, propagassem que esse era o mapa da mina. “Invista em imóveis para dobrar seu capital” era uma frase fácil de aceitar dados os ganhos facilmente observáveis do período. O primeiro problema é que a rentabilidade passada não garante que um investimento vai continuar gerando frutos.

No caso dos imóveis para investimento, é preciso lembrar sempre de um outro desafio de ordem prática: manter um imóvel gera custos tributários e de manutenção predial e/ ou condomínio, e se você resolver alugar seu imóvel, precisa estar preparado para enfrentar um processo por inadimplência ou depreciação não esperada do imóvel.

Mauro Halfeld é diferente: em vez de vender riqueza fácil, propaga a ideia de que a felicidade se encontra no final da vida, mas só para aqueles que pouparam. Os endividados vão para o inferno, mas serão perdoados se amortizarem suas dívidas e guardarem algumas reservas para investir no Tesouro Direto. Bem aventurados serão aqueles que investirem em fundos conservadores com baixas taxas de administração. Esses entrarão no reino dos céus, pois conseguiram adiar “aquela viagem”, não caíram nas tentações do consumo e do crédito fácil, e ainda conseguiram um bom retorno.

É muita chatice! Antes de pregar aquele conservadorismo previsível, o especialista em finanças deve entender bem o perfil do seu público. Algumas pessoas gostam de correr riscos, então, no lugar dos conselhos para investir em poupança, Tesouro Direto e fundos com baixas taxas de administração, talvez fosse interessante que as palestras e treinamentos de finanças pessoais informassem:

  • Quais fatores são importantes ponderar ao escolher um investimento;
  • Porque alguns fundos cobram taxas maiores do que outros;
  • Como estimar a perda máxima em um investimento de risco;
  • Quando vale a pena pegar um empréstimo.

Certamente, muitas pessoas vão procurar a tranquilidade de não ter dívidas ou, melhor ainda, de ter aplicações financeiras com boa liquidez, mas outras várias vão procurar a turbulência do mercado de ações, algumas vão se endividar e poucas vão empreender. O importante é que cada pessoa entenda os principais riscos que corre, e que os melhores investimentos de longo prazo sempre serão a educação e a felicidade. Invista em ambos sem moderação.

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