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Custos e estoques em alta derrubam rentabilidade da construção civil

Matéria do Estado de S. Paulo analisa queda na rentabilidade do setor de construção civil, com a opinião do Prof. Eric Barreto, da M2M Escola de Negócios.


Custos e estoques em alta derrubam rentabilidade da construção civil
O Estado de S. Paulo
O Estado de S. Paulo

01/02/2015

A rentabilidade das incorporadoras imobiliárias de capital aberto despencou nos últimos quatro anos e o cenário adverso pode adiar um novo ciclo de investimentos no setor. A mão de obra e os insumos mais caros, além do crescente estoque de imóveis à espera de compradores, empurrou para baixo os indicadores que medem a eficiência dessas empresas e sua capacidade de dar retorno aos acionistas.

Um estudo do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) obtido com exclusividade pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, dá uma ideia do que o setor está passando e dos desafios que estão por vir. Entre dezembro de 2010 e setembro de 2014, o retorno sobre patrimônio (ROE) das companhias de construção civil caiu drasticamente, com a média das rentabilidades passando de 15,4%, em 2010, para 0,4% em 2014. O ROE indica quanto a empresa conseguiu extrair de lucro em relação ao que foi investido no negócio.

"Percebemos uma queda considerável nesse indicador apesar de a receita estar crescendo na maioria das empresas", diz Eric Barreto, professor do Insper e coordenador do estudo feito com pós-graduandos. Para cada R$ 1 em ativos, o retorno médio em receita líquida foi de R$ 0,29, em 2014, e de R$ 0,48 em 2010.

Segundo Barreto, a conjuntura atual - com um mercado de trabalho menos favorável e a desaceleração no ritmo de concessão de crédito - deve prejudicar ainda mais o setor. O próprio Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) já alertou que o cenário negativo pode adiar para 2016 o início de um novo ciclo de investimentos.

O levantamento do Insper inclui informações de 12 das principais companhias de construção civil com ações negociadas na Bovespa: Brookfield, CR2, Cyrela, Even, Eztec, Gafisa, JHSF, MRV, PDG, Rodobens, Rossi e Tecnisa.

Além da dificuldade no giro do capital, o estudo também identificou redução na margem operacional - índice que mede a eficiência das vendas de uma empresa e o quanto ela consegue convertê-las em lucro. Houve queda na margem em nove das 12 companhias investigadas. "Isso ocorreu porque os custos aumentaram num ritmo maior do que as receitas", diz Barreto.

Mão de obra. Mesmo com a desaceleração do mercado imobiliário, os gastos com mão de obra seguem aumentando acima da inflação oficial. O Índice Nacional da Construção Civil medido pelo IBGE foi de 7,74% em 2014, enquanto a inflação (IPCA) no mesmo período ficou em 6,41%. Outro indicador que mede o custo do trabalho na construção civil, apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que a mão de obra ficou 8,49% mais cara dentro do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) de 2014.

"Como o setor está desaquecido, isso diminui a perspectiva de aumentos consideráveis na mão de obra nos próximos meses", diz André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

O SindusCon-SP ressalta que os resultados apontados pelas empresas do setor refletem ciclos de crescimento longos, com maturação média de quatro anos. "Os resultados de 2010 e 2011 refletiram decisões de investimentos tomadas em 2007 e 2008. As condições eram bastante favoráveis", lembrou Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia do sindicato.

Ele lembra que os ciclos terminados em 2013/2014 foram resultado de decisões de investimento tomadas quatro anos antes e que pegaram condições de mercado menos favoráveis ao longo do caminho, como terrenos mais caros, escassez de mão de obra e aumento de preços de insumos.

Com tantos desafios, as decisões sobre novos empreendimentos podem ser postergadas para 2016. "Estamos no olho do furacão, em meio a uma onda de pessimismo e ajustes. Ninguém investe, as famílias postergam, os empresários também. A taxa de juros e a incerteza são as maiores inimigas do investimento", avalia Zaidan. O Índice de Confiança da Construção (ICST), apurado pela FGV, recuou 6,1% neste mês em relação a dezembro, para 90,8 pontos, o menor nível da série histórica iniciada em julho de 2010.