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Comida pode ser usada como dinheiro?

Artigo de Fábio Azevedo, coordenador da M2M, relembra parte da história do dinheiro.


Comida pode ser usada como dinheiro?
Fábio Azevedo
Fábio Azevedo
Coordenador da M2M

20/01/2014

Pode parecer estranho, mas o dinheiro nem sempre assumiu a forma de papel moeda, tal como estamos acostumados hoje em dia. Diferentes sociedades de diferentes épocas adotaram matérias primas diversas para estruturar o seu sistema financeiro, entre as mais comuns estavam as commodities agrícolas, os animais, as pedras e até mesmo seres humanos.

O Império Asteca tinha seu sistema baseado no chocolate, ou, mais precisamente, nas sementes de cacau, consideradas como alimento dos deuses. Podia-se trocá-las por produtos como milho, carne, cobertores, entre outros. Não era o único meio de promover trocas comerciais, é verdade, mas seu papel era de grande importância para igualar o valor entre duas mercadorias cujos valores não fossem equivalentes.

Os nativos de regiões da Índia usavam amêndoas, os guatemaltecos usavam milho e os babilônicos e assírios usavam cevada. Na China, na África do Norte e no Mediterrâneo, as pessoas usavam sal como dinheiro. Acredita-se que os soldados romanos eram pagos em sal ou que recebiam dinheiro para comprar sal e temperar sua comida. Estaria aí a origem da palavra salário.

Sociedades pastoris frequentemente utilizavam animais vivos como dinheiro, e assim calculavam e pagavam praticamente tudo, de alimentos até pessoas para serem escravas. Desta forma, no caminho inverso pela via da escravidão, pessoas também serviram como medida monetária para troca de itens como cabras, vacas e terras. Isso ocorreu em diversas culturas e diversas épocas desde a antiguidade, porém, entre todas as formas de dinheiro, esta foi-se demonstrando a pior, pois escravos tinham alto índice de mortalidade e grande tendência à fuga. Em outras palavras, não podiam ser considerados uma boa forma de poupança.

O que a história nos mostra é que, para ter valor como dinheiro, uma mercadoria precisa ter também valor dentro de um contexto cultural. O próprio dinheiro pode ser considerado uma instituição social, uma vez que não funciona no vácuo, ou seja, depende de um sistema sociocultural, e até mesmo político para se desenvolver.

Mesmo nos dias atuais, o uso de mercadorias como dinheiro não é totalmente descartado ou improvável. Sempre que o fluxo normal da vida econômica é interrompido, seja em função de guerras ou crises de diversas naturezas, o uso de mercadorias no lugar do dinheiro acaba ressurgindo, inclusive de maneiras inusitadas. Cigarros, chicletes e, especialmente chocolate, preencheram temporariamente a lacuna monetária na Europa no final da Segunda Guerra Mundial, sobretudo com a chegada dos soldados americanos. Quem ousaria imaginar que o alimento dos deuses, desde a queda do Império Asteca, voltaria a ter tanta importância como moeda?

Texto baseado no livro “A História do Dinheiro”, de Jack Weatherford.